Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

Capitu de Machado de Assis com Ednei Giovenazzi e Maria Ribeiro

profile

Memórias do Brasil

Descrição:

“Nessa última semana passou por Brasília o espetáculo Capitu, da obra de Machado de Assis, um marco para a literatura brasileira. Um momento de reflexão sobre os nossos valores como seres humanos. Trata de ciúmes, tristeza, um questionamento do nosso eu.

É verdade. Essa obra do Machado de Assis é uma obra prima. E fala do homem e da mulher. Dessa relação tão delicada. Continua delicada nos dias de hoje. É impressionante como se chega a conclusão de que quando não há um diálogo, uma compreensão, não há amor que resista. Principalmente quando vem o ciúme, esse sentimento tão antigo, eterno, terrível, que às vezes pode ser até ser construtivo, mas em dose excessiva é completamente destrutivo. É o que acontece com o meu personagem, o Dom Casmurro. Ele se destrói. Ele perde a sua própria vida em função do ciúme.

Bentinho, que é um menino de 15 anos, criado pela mãe, sem a presença do pai, pela mãe e pelos tios e criado para ser padre. Só que ele se vê, no momento em que ele tem que ir para o seminário, apaixonado pela vizinha dele, pela amiga dele de infância que é a Capitu. Eles se casam e aí a história vira uma outra coisa. Passa a ser o relacionamento dos dois casados e do ciúme doentio que toma conta da cabeça do Bentinho. Ele começa a ter um ciúme avassalador e acaba destruindo o casamento, a vida dela, a vida dele, a vida do filho, por causa de uma dúvida, porque na verdade não existe uma certeza de que ela traiu ou não. Tudo se passa na cabeça dele. Isso que é o mais triste. Destruir a vida por causa de uma dúvida. Porque nem perguntar para ela se isso realmente aconteceu ele faz. E

u acho que não é à toa que a Capitu é a maior heroína da literatura brasileira. Uma mulher à frente do século XIX. Uma mulher que tomava decisões, uma mulher forte, uma mulher que era o homem da casa, com o Bentinho. Ela não se satisfaz com o casamento somente, que era uma dedicação integral ao parceiro. Os homens podiam sair, se divertir e as mulheres não. Às mulheres cabiam cuidar dos filhos e cuidar da casa. E ela não, ela gosta de sair, de se exibir com o marido, de ficar bonita, de ser admirada, admirar. Coisas que são absolutamente humanas e naturais. O que não significa que ela não amasse muito o Bentinho. E o que não significa que de repente ela jamais traiu fisicamente o Bentinho. Não significa que ela não tenha achado outros homens interessantes.

As palavras estão ali, é Machado de Assis. A gente não inventa texto, não faz graça. É muito simples. O grande mérito é que continua sendo Machado de Assis e é muito bom.

O ator é um agente. Ele não é uma pessoa passiva. Ele é uma pessoa atuante, modificadora. A minha maior felicidade é quando eu consigo fazer um personagem com verdade e eu consiga transmitir alguma coisa, alguma ideia, algum sentimento que melhore o ser humano. Quando o teatro tem essa capacidade de você transformar o espectador, te dá prazer, fazer rir, fazer chorar, pensar e modificar a pessoa que assistiu, isto para mim é a maior satisfação. É o meu grande orgulho de ser ator.”

Dezembro de 1999