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Expressões de arquitetura, os desenhos de sustentabilidade e o novo mundo que a gente quer

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Memórias do Brasil

Descrição:

Expressões de arquitetura, os desenhos de sustentabilidade e o novo mundo que a gente quer
Entrevista com Regina Fittipaldi

“Os dados são de que até 2025, 85% da humanidade vai estar em cidades. E a gente viu no ano passado, no World Watch Institute dizendo que em dezembro mais de 50% da humanidade já está habitando cidades. Então, na nossa classificação, ser humano passa a agregar uma qualidade como ser urbano. Cabe justamente essa reflexão. Se nós, na grande maioria, a nossa tendência é estar agregado, vivendo em núcleos de convivialidade, então a gente pode dizer que as cidades são a expressão do ecossistema humano. Assim como a gente tem o ecossistema das abelhas, o ecossistema dos corais, os ecossistemas dos animais das florestas, nós temos o ecossistema humano que se apresenta nesse momento, no século XXI em desenhos urbanos.

Os desenhos urbanos hoje são modernistas, quer dizer, são desenhos que traduzem uma construção de ser-estar no mundo analítico, racionalista no qual aspectos importantíssimos de ser-estar com saúde, com harmonia, estão excluídos. O desenho urbano hoje é para atender demandas concretas. É preciso um outro desenho. É preciso redesenhar a maneira do ser humano estar no mundo. Dentro de uma perspectiva que também nós estamos nos dando conta agora que é: o ser humano deseja viver em paz. Os nossos desenhos de cidade são desenhos que traduzem uma exclusão social, uma estratificação social. Eu não acho que essa constatação significa que a gente tem que ficar agora chorando, se lamentando. É como Leonardo Boff fala, ‘transformar o luto em luta’. Toda essa constatação que nos faz revisitar uma maneira de ser-estar no mundo agora nos abre também para reflexão do seguinte: que mundo a gente quer?

Como eu idealizo, como eu imagino a minha casa? Como eu imagino o espaço onde eu vou conviver com os meus amigos, com os meus vizinhos, com os meus filhos? Que cidades eu desejo pras gerações futuras? Então esse repensar o espaço na verdade é repensar uma atitude. Nós, cada vez mais nos percebemos e reconhecemos como seres, graças a Deus, pertencentes a uma teia da vida na qual os elementos são copartícipes. Todos nós somos coatores de um mesmo cenário, de uma mesma experiência, uma mesma aventura de viver. Cada vez mais nós percebemos que essa interdependência é uma tradução da sabedoria da vida que estabelece que os limites entre os seres não são aqueles exclusivamente que nós percebemos os nossos sentidos. Ultrapassam essa percepção. Essa visão onde o todo e a parte estão interconectadas tem que transparecer na nossa atitude no mundo.

Na verdade é uma oportunidade que a gente tá se abrindo para incluir como referencial de que nós não somos o centro do mundo. Desde Galileu a gente viu, a Terra não é o centro do sistema solar. Ok, isso a gente já aprendeu. Agora a gente também precisa aprender que embora sejamos seres lindos, seres criativos, que transformam cavernas em casas, em museus, que constroem pontes, que descobriu a roda, fazem concertos, que transformam crinas de cavalo em violinos… Esses seres que tem essa beleza precisam também sair de uma cegueira que o fez cometer o equívoco de achar que era o centro da criação, ou a coisa mais importante da criação.

O que nós estamos querendo hoje cada vez mais é sermos capazes de contemplar a beleza, a harmonia. Não só nas flores de um jardim, mas quando vemos seres humanos juntos. Essa é a oportunidade de a gente estar revisitando esse olhar. E várias iniciativas já vem sendo tomadas nessa direção. Então a gente vê por exemplo, na linha mesmo da minha atuação profissional, que é arquitetura e urbanismo, a gente vê pessoas se mobilizando na direção de um novo desenho de sustentabilidade. Expressões de arquitetura que façam a inclusão de materiais que sejam menos agressivos ao meio ambiente, a questão do reuso, das energias renováveis. Nós estamos, na verdade, engatinhando nisso tudo.

Março de 2010