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Juca de Oliveira e Cláudia Mello falam do teatro brasileiro

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Memórias do Brasil

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Juca de Oliveira, ator e dramaturgo: Todas as minhas peças são comédia porque eu acho que a comédia nasce do cérebro, ela nasce da inteligência. E quando você assiste uma comédia, queira ou não queira, você ri, você se diverte, você critica as coisas que estão acontecendo na sociedade. Mas você passa a refletir sobre o que você viu.

O que eu acho bonito no teatro é que o teatro é uma expressão de cultura que socializa novos comportamentos, ele abre picadas. Quando você assiste uma peça de teatro que tem uma centelha de vida, e eu tenho a presunção de acreditar que o “Caixa 2” tem, porque provoca esta comoção. Eu faço teatro há mais de quarenta anos e eu nunca vi uma reação tão ruidosa como a do Caixa 2 em nenhum outro espetáculo, mesmo os que eu assisti na Europa e nos Estados Unidos. Quando há uma centelha de vida, o que acontece? As pessoas se modificam. Você assiste uma peça e quando você sai, você é uma outra pessoa.

O teatro tem essa função. As pessoas assistem o teatro e elas saem modificadas. Elas saem enriquecidas de toda a problemática que elas viram porque essa problemática foi transferida para elas através da sensibilidade dos artistas, dos grandes atores que representaram, do escritor que conseguiu apanhar aquele drama e transfigurar com a sua arte. A criatura não tem resistência àquilo, aquilo penetra como enriquecimento. É nisso que eu acho que o teatro é lindo.

Cláudia Mello, atriz: Essa comunhão entre público e nós, é imediata. A gente está ali vivenciando de uma forma muito teatral e muito densa as questões que dizem respeito ao ser humano e ao ser humano dentro do seu contexto sociopolítico, ecológico e vivencial.

Juca: Todo ator que entra em cena tem sempre um certo receio. Você fica amedrontado porque às vezes representamos para duas mil pessoas ao mesmo tempo. Nós tínhamos mil e seiscentas pessoas agora no domingo. Então você está representando para milhares de pessoas ao mesmo tempo. E sempre dá um certo temor porque você está sobre o palco e você tem que dizer alguma coisa àquelas pessoas e aquelas pessoas tem que aceitar o que você está dizendo. Como você pode chegar ao espectador? Você só pode chegar ao espectador quando você desencadeia um processo afetivo em relação a ele. Se você tem generosidade em relação a platéia, a platéia imediatamente vem a seu favor. Ela começa a te acompanhar e você sente isso, isso é uma coisa interessante. Há atores que representam e dizem “ih, a platéia hoje não está afetiva, não está prestando atenção, não está rindo, não está participando”. É burrice dele. Ele é que está agressivo em relação a platéia. Porque se você recebe a platéia de uma forma generosa ela vem para você com tudo. Ela te acompanha avidamente. Você entra em comunhão com ela.

Cláudia: E é uma comunhão, é um privilégio. Como é que você pode chegar num palco e discutir tudo a seu respeito, a respeito do próximo? Porque são seres humanos ali em questão e isso é uma comunhão, né?
O teatro, eu acho que é uma arte de certa forma popular, mas em relação ao grande alcance da televisão, é extremamente elitizada. Isso não se justifica… cobrar preços exorbitantes.

Juca: Eu discordo um pouco de você, sabe por quê? Lá em São Paulo nós fazemos sempre temporadas populares. A gente faz o teatro durante um certo período e no final do espetáculo nós baixamos o preço para que todas as camadas da população tenham acesso. Inclusive os períodos de teatro popular, de popularização mesmo, a campanha da Kombi. Às vezes se vende o ingresso a R$ 5,00. Às vezes mais barato que o próprio cinema. Então há chance de todas as camadas assistirem.

Aqui em Brasília nós realmente encontramos um problema, que é o problema da Sala Villa Lobos. A Sala Villa Lobos acabou estabelecendo como mínimo diário aproximadamente R$ 4.400,00 que é o maior mínimo cobrado em todo o Brasil mesmo levando em conta os teatros particulares que tem como objetivo o negócio. E a Villa Lobos é um teatro do Estado. Ele não é um teatro que teria como objetivo o lucro. Cobrando um mínimo tão alto, e nós estamos discutindo para reverter o quadro, porque nós que somos uma companhia forte e temos sucesso, nós estamos cobrando R$ 40,00 e R$ 30,00. Como 70% da população paga meio ingresso, nós estamos cobrando R$ 20,00 e R$ 15,00 para pelo menos 70% da nossa lotação. Mas eu acho caríssimo 40 e 30. 40 e 30 é o preço mais caro que nós cobramos em toda a carreira do “Caixa 2”. Como eles estabeleceram um mínimo tão alto nós estamos lutando com a Secretaria de Cultura para reverter esse quadro porque esse quadro leva a conclusões catastróficas. Porque nessas condições você não pode vir, nós estamos tendo prejuízo. Porque o mínimo, mesmo quando lotamos completamente as salas, nós não pagamos o mínimo. O mínimo era 15%. Pagamos mais do que isso. Existe uma impropriedade. E o que é pior é que, aí sim, vai elitizar a Sala Villa Lobos, as companhias de teatro não poderão vir para cá com seríssimos prejuízos para Brasília.” (Maio de 200