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Matheus Nachtergaele, o ofício e a paixão de ser ator

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Memórias do Brasil

Descrição:

“Eu acho que tudo o que tá acontecendo comigo é fruto das coisas que eu fui plantando, acho que tem muito trabalho a ser feito ainda, não me sinto realizado em hipótese alguma. O que eu sinto é que cheguei num lugar onde as pessoas conhecem meu trabalho e prestam atenção no que eu to dizendo, isso é importante pra mim.
Acho que ser ator é um oficio com funções com responsabilidades. Quer dizer as coisas que eu vou fazer, que eu venha a fazer e que eu fiz, são coisas que eu acredito que possam ajudar a gente a se conhecer melhor, a gente a pensar no ser humano, enfim pouco a pouco a gente a ser mais feliz.

Acho que isso é a vocação quando você encontra um lugar onde você e os outros ficam mais felizes, isso pode acontecer na medicina, na engenharia, atrás das câmeras, na frente das câmeras. Isso pode acontecer em vários lugares mas é importante que isso se mantenha e seja o foco principal, então nesse sentido, eu me sinto alegre. Acho que eu estou na vocação, agora ainda tenho muito para trabalhar muito pra fazer.

Eu acho que pro ator é um exercício de autoconhecimento sempre. Eu acho que nós atores, por algum desvio, não conseguimos nos conhecer tão bem na vida, na vida normal entre aspas, a gente precisa dos personagens pra que a gente possa se conhecer, a gente precisa ser outro pra que a gente posso nos ser. Essa é um pouco a patologia nossa, uma espécie de esquizofrenia, uma necessidade grande de se fingir outro para se ser e durante esse fingimento, você acaba encontrando algumas das suas facetas. Nós somos uns mutilados e a gente vai juntando os nossos cacos a cada personagem e tentando descobrir quem a gente é.

O ator é uma espécie de sacerdote, uma espécie de xamã profano que aceita receber como um cavalo algumas das experiências do homem pra que o homem possa se ver, então é um oficio de limpeza de xamã de ritual independente da evolução das coisas, independente da chegada do cinema e da televisão. Eu acho que os bons atores encarnam arquétipos, experiências importantes pra que a gente enquanto público possa se enxergar, rir, chorar, melhorar.

Na sociedade capitalista e competitiva, acho que o ator também passa a ser outra coisa, um depósito de recalques. Um modelo de algumas coisas que se quer vender. Ele às vezes passa a ser massa de manobra de uma indústria que é muito maior do que ele e sobre a qual ele não tem controle.

Quando um ator é bacana, quando a gente gosta muito de um bom ator e é um pouco isso do que tá acontecendo, a gente tá enxergando um pouco da gente nele porque ele tá se oferecendo pra isso, oferecendo sua carne, sua parte experiência pra tentar se conhecer e através disso, fazer com que a gente possa se ver um pouco.

Tchekhov, que é um autor Russo incrível, escreveu uma peça chamada: A gaivota em que 2 jovens artistas se confrontam com 2 velhos artistas e tentam ganhar seu espaço num mundo competitivo, num mundo competitivo das artes e um dos 2 jovens artistas é a Nina. Uma jovem aspirante a atriz que no final da peça diz o seguinte e essa é a minha mensagem. Torno de Nina, as minhas palavras. Ela diz:

“Agora eu descobri que o que importa na nossa profissão, não é vencer, não é brilhar como eu tanto esperava e sim permanecer, persistir, carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé. Eu sei qual é a minha vocação e quando eu penso nela, eu não tenho mais tanto medo da vida.”

Setembro de 2003