Nicolas Behr lança Restos Vitais com boa parte de sua trajetória

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Memórias do Brasil

Descrição:

“Esse aqui é o livro “Restos Vitais”, uma reunião de cinco livrinhos pequenos meus que eram mimeografados, que eu rodava em mimeógrafo, vendia muito de mão em mão onde tivesse gente. Rodoviária, ônibus, porta de show, porta de teatro, porta de colégio. E o meu best-seller foi o primeiro, “Iogurte com Farinha”, que eu vendi 8 mil. Mas eu rodei pelo Brasil também, né. Fui ao nordeste, fui ao sul. Muita gente me pede os livros e nunca tem a coleção completa, então eu resolvi juntar nesse livro os cinco primeiros. Iogurte com Farinha, Leia Antes que Azede, Proibido para Menores de Cinco Cruzeiros, Grande Circular, Poemas com Sabor bem Brasília, Caroço de Goiaba, Chá com Porrada e Bagaço.

E aqui também tem um documento inédito que é o processo que o DOPS moveu contra mim em 1978, que eu fazia os livrinhos, mimeografava os livrinhos e fui preso por posse de material pornográfico. Fui julgado e fui absolvido. Mas na verdade era pela minha participação no movimento estudantil. Então esse aqui também é o documento de uma época. Essa época foi uma época muito especial porque eu acho que ajudou muito a fixação de Brasília como cidade. O inconsciente coletivo de Brasília veio à tona e, pela primeira vez, uma geração falou “nós amamos Brasília e nós vamos cantar Brasília”, porque começou-se a fazer música sobre Brasília, filme sobre Brasília, peça de teatro sobre Brasília, dança que o tema era a cidade, poesia que o tema era a cidade. Antes as pessoas vinham para cá com má vontade, ou transferidos ou forçados. E nós não viemos forçados para cá, viemos com a família e resolvemos assumir a cidade. Acho que isso foi um momento importante para Brasília porque começou a destoar a cidade do poder e mostrar uma outra Brasília, subterrânea, underground, rebelde, roqueira, que respirava, que pulsava, que Brasília não era só a praça dos três poderes. E foi uma coisa muito espontânea. Ela veio com uma força muito grande e depois se atomizou e se dispersou. Mas o grande momento foi a passagem dos 70 para os 80. Eu vim de uma cidade pequena de Mato Grosso, na época era pequena. E Cuiabá-Brasília foi um choque para mim violento, era muito grande, saí do mato para cair na maquete. Então eu acho que desse choque de sair do mato e cair na maquete é que veio a história de começar a escrever para tentar entender a cidade. É um sonho meu fazer isso aqui, ter isso aqui junto assim.”

Abril de 2005