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O filme Avatar e a relação com o planeta, o nosso grande cérebro

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Memórias do Brasil

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O Psicólogo Marco Aurélio Bilibio em conteúdo inédito explica a relação do filme Avatar com a Ecopsicologia.

O filme Avatar é sem dúvida fantástico tecnologicamente. Ele coloca a gente dentro da história. E a revolução tecnológica que ele significa impacta as pessoas de uma maneira muito intensa. Mas eu acredito que não é só isso que faz o filme ter o sucesso que ele tem. O filme Avatar mexe com coisas muito profundas que estão chacoalhando no fundo da nossa alma nesse tempo de mudanças climáticas, esse tempo de fracasso de Copenhague. O sucesso dele é integrar essa genialidade tecnológica com um conteúdo que é absolutamente atual e urgente. Então ele acaba mexendo não só com o encantamento estético mas ele faz vibrar algo muito profundo na nossa alma.

O Jake Sully é um personagem que faz um trajeto de conversão. É uma pessoa que está bem dentro do nosso jeito de funcionar, tem um treinamento como militar, mas é um camarada que está profundamente vazio por dentro. E a gente percebe um trajeto de transformação no personagem central. Basicamente ele vai abandonando o modo ocidental de ver a vida e passa a ganhar uma outra perspectiva que ele vai aprendendo a a partir do encontro com um povo que funciona de outro jeito, que vê as coisas de uma outra maneira e tem outros valores. Na Ecopsicologia, o Jake Sully é um personagem que vivia com uma atrofia numa dimensão da alma dele, que a gente chama de ‘Inconsciente Ecológico’, e que ele passa a ganhar acesso que leva outros valores, que leva a uma profunda transformação.

O contato com o povo Na’vi é similar ao que aconteceu com muitos brasileiros que tiveram contato com nações indígenas, que acabam tendo um choque cultural no contato com o povo que vê a vida diferente e colocam em dúvida sua própria maneira de ver a vida. E o filme apresenta um modo de ser especialmente na figura do grande chefão e na do militar. Um modo de ser que é considerado normal na nossa sociedade mas que provoca um efeito extremamente destrutivo nas nossas relações com o meio. E essa normalidade, hoje, é ela que está nos levando a essa crise ambiental e climática. Nossa normalidade tem algo de errado. Esses elementos equivocados nesse jeito de funcionar ficam evidentes no filme, na figura do militar e no chefe. O Jake Sully, que a princípio está à serviço dos dois acaba descobrindo que tem um profundo equívoco no que está sendo feito ali. E aí ele se converte e essa conversão, que é adotar outros valores, é o que a gente chama de Ecopsicologia de desrepressão do inconsciente ecológico.

É interessante como o planeta Pandora no filme ganha interpretações diferentes em personagens diferentes. Pro militar, Pandora é um grande risco. Qualquer passo que você dê, ameaça sua própria vida. O chefe militar vê o planeta como um campo de guerra. O povo Na’vi é um povo inimigo, porque a visão que o outro chefe do projeto econômico tem do planeta Pandora é apenas de um lugar onde existe um mineral que lhe interessa. Ali você vê o militarismo à serviço de uma política bastante normal do ponto de vista econômico pra nossa normalidade, mas que tem efeitos colaterais que muitas vezes não são considerados na atividade econômica. Mas a cientista vai ganhando uma visão diferente do planeta. As pesquisas dela vão mostrando que o planeta Pandora funciona como um grande cérebro. Ela descobre que as raízes das árvores se comunicam. Isso nos remete a uma ideia que existe hoje – o escritor Peter Russel falava disso, o cérebro global, o James Lovelock com a Teoria de Gaia também vai na mesma direção – que é que o nosso planeta é um grande organismo e poderia ser chamado mesmo um grande cérebro. O Peter Russel fala do cérebro global por conta das interconexões entre todas as espécies e todos os sistemas.

Então o filme retrata muito bem isso que hoje vai se tornando uma realidade científica, que nós vivemos dentro de um grande organismo. Esse grande organismo é uma teia de trocas sempre com uma tendência ao equilíbrio e que frequentemente é desconsiderado nesse aspecto pela política econômica. A economia funciona de um jeito e a realidade de outro totalmente diferente. Então quando a economia é retratada tanto pelo chefão e também o militar, entra nos sistemas delicados de vida pra buscar o seu objetivo, cria problemas e frequentemente tragédias não só biológicas como culturais também, no caso do povo Na’vi e enfim, de tantos povos nativos que foram destruídos. O filme é interessante porque ele retrata essa ideia de que o planeta, não só Pandora, o nosso planeta, na verdade é um grande cérebro, um grande organismo.

Março de 2010