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O filme ‘Lula, o filho do Brasil’ e o cinema nacional no centro das discussões

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Memórias do Brasil

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Eduardo Chauvet: Aqui com a gente Carlos Marcelo, editor do Correio Braziliense e do suplemento “Pensar”, que sai aos sábados dentro do caderno “Diversão e Arte”. A gente o convidou para falar sobre o filme “Lula, o filho do Brasil” que, naturalmente, tem chamado muita atenção e ainda vai render muitos comentários.

Carlos: Eu acho que em primeiro lugar a gente tem que destacar que o filme criou um fato. O filme é um fato político. Mas o filme foi um marco inclusive na exibição no Festival de Brasília quando ele provocou uma intensa polêmica na abertura do festival. Muita gente gostou do filme, muita gente não gostou do filme e surgiram muitas acusações de que o filme seria utilizado para fazer o sucessor do presidente Lula. Esse talvez seja o principal mérito do filme neste momento: reposicionar o cinema nacional no centro das discussões. Isso é muito importante.

Por outro lado, acho que o filme tem alguns problemas em termos cinematográficos. Eu acho que a visão do diretor Fábio Barreto acabou sendo muito superficial em relação à própria trajetória do Lula. Isso a gente pode ver nas cenas de maior impacto. Por exemplo, nas cenas de greve geral do ABC paulista. Eu acho que o próprio personagem, o Lula, perde para o verdadeiro Lula. As cenas que a gente conhece de documentários que cobriram aquele período histórico essencial da história recente do país são mais fortes, são mais contundentes do que as cenas recriadas pelo diretor Fábio Barreto.

Então eu acho que no final das contas é um Lula “light” que aparece na tela. Como se ele tivesse investigando a gênese do Lula, o berço do Lula, como ele se formou, as suas origens… Inclusive o filme tem boas cenas filmadas no nordeste com uma bela fotografia. Mas exatamente por isso acho que o filme acaba sendo um pouco leve demais. O filme acaba padecendo de um certo superficialismo, não aprofundando muitos aspectos da vida do Lula. E ao concentrar a ação no início da vida do atual Presidente da República, eu acho que ele acabou não dando tanta força ao seu personagem, especialmente por esse caráter episódico das cenas. Elas vão se acumulando e elas não vão criando um todo consistente.

Eu acho que tem um aspecto interessante que é a fotografia do filme. É de um jovem chamado Gustavo Hadba. É uma fotografia bem interessante, muito competente. Acho que a Glória Pires está muito bem no papel de Dona Lindu, a mãe do Lula. Eu acho que o ator que faz o Presidente da República, Rui Ricardo Dias, oscila muito e acho que há problemas de direção no filme exatamente para fazer um nivelamento da atuação dele. Então muitas vezes, por exemplo, ele fala com a língua presa, como o presidente, e às vezes ele esquece isso. Isso é um problema de direção, não é um problema de atuação.

Eu acho que é importante ver o filme até mesmo pra poder falar mal. Porque uma coisa que acontece muito no cinema nacional, infelizmente, são as pessoas falando mal sem ter visto o filme. Nesse caso é um filme essencial para se entender como está sendo feito o cinema do Brasil e como é possível ainda discutir política a partir do cinema, a partir da arte, a partir da cultura. Eu acho que essa relação entre arte e política nunca pode ser desprezada. Essas coisas caminham juntas muitas vezes e a gente não pode ficar de fora dessa discussão.

Janeiro de 2010