O Rappa e sua história de som e luta social

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Memórias do Brasil

Descrição:

“Rio de Janeiro, 1993 nasce O Rappa. Mas não nasce somente uma banda. Nasce um projeto social, um trabalho que vocês começaram a desenvolver juntamente com o trabalho da banda. Uma coisa anda lado a lado com a outra, é isso mesmo?

Na comunidade que a gente iniciou teve aquela chacina que ficou mundialmente conhecida. E aí a gente foi desenvolvendo um trabalho junto com esse grupo, o grupo cultural Afro Reggae há 7 anos atrás. O negócio foi crescendo e hoje é uma coisa forte. A nossa turnê está se estendendo ao Brasil todo. Então a gente está aí com a campanha, a gente está cedendo 5% dos nossos direitos autorais, tem a boleta bancária que vem no disco para você participar dessa campanha doando qualquer centavo. As doações ainda são muito poucas, mas a sociedade civil, a mídia, já entendeu que o que a gente faz é sério e esse trabalho agora recentemente na Venezuela foi premiado como o melhor projeto de uma ONG na América Latina.

E a gente já pôde viabilizar 3 projetos que já estão rolando. São 3 projetos em diferentes partes do país. Quanto mais grana a gente tiver, a gente vai poder viabilizar muito mais projetos. Não é caridade, são frentes de trabalho. Como o Afro Reggae hoje lá no Rio de Janeiro os caras já têm a banda, assinaram com gravadora multinacional, estão fazendo shows fora do país e já significam muita coisa para a área deles. Isso é que é importante. Vem dando certo para caramba. A gente não pode ficar aqui esperando de político nenhum tipo de atitude. A gente mesmo que tem que tomar frente disso.

“É o país do futuro”. País do futuro nada, somos o país do presente, eu acho que a gente tem que lutar por isso. Essa história de 500 anos para gente não rola, a gente é totalmente avesso a isso. Acho que isso é uma puta sacanagem com o povo brasileiro, que realmente são os índios. São 500 anos de exploração.

A gente não tem que comemorar 500 anos. As coisas que a gente tem que comemorar a gente tem que comemorar todo dia, que é um país etnicamente misturado apesar do racismo velado que tem aqui. A gente tem que comemorar um país que, culturalmente é moderno para caralho ao mesmo tempo que é a nossa raiz, é identidade.

500 anos? Então vamos fazer alguma coisa social para o país. Vamos desenvolver alguma coisa. Vamos defender os sem-terra, vamos defender alguma coisa que realmente faça parte da nossa terra, que faça parte do país, que faça parte do brasileiro.

A gente está defendendo um ponto de vista que a gente não é o cara que toca mais na rádio nem o cara que toca menos. Mas o que a gente toca favorece a gente hoje em dia a defender um trabalho que é de carreira, 3 discos de conceito, sempre sendo bem falado pela crítica e pelo povo, show lotado hoje e ontem, por uma batalha. Então a gente podia estar aqui o tempo todo falando do nosso disco, da nossa carreira. A gente está defendendo um ponto de vista que outros artistas, com a imagem que eles têm, com o que eles conseguem, eles podiam estar fazendo um pouco mais não só por eles, um pouco mais por outras pessoas também. Então a gente acha que uma bola de futebol não dá para jogar sozinho.

Vamos fazer alguma coisa que realmente emociona a gente. A gente que vive isso no Rio, a gente trabalha em comunidade carente em que a proteção da gente é a consideração que as pessoas têm pelo que a gente faz na comunidade. Então tem muitas coisas em que a gente acredita. De repente se não tem mais espaço na mídia que a gente queira estar, porque a gente dá importância a falar ao vivo, a tocar ao vivo, a falar e ouvir.

A gente está tentando usar o máximo da nossa imagem, do que a gente tem de exposição na mídia para colocar as coisas que a gente realmente acredita e vem dando certo.”

Março de 2000