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Omar Franco, pintor, escultor de aço e as intervenções urbanas

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Memórias do Brasil

Descrição:

“Faço com que o aço se torne bonito, que se torne leve, que se torne agradável. Eu preciso de usar maçarico para corte, eu preciso usar um jato de limpeza. Eu preciso usar diversos processos que me ajudem. Então eu tenho equipamentos para limpeza, equipamentos para solda, equipamentos para pintura. Então é uma oficina completa.

O grau de complicação que eu posso ter em uma peça de grande porte eu passo a conhecer antecipadamente numa maquete. Nessa etapa eu descarto muita coisa, por exemplo, que as vezes é interessante em pequeno formato, mas eu imagino se aquilo cresce pode se tornar um monstro. Eu posso tratar com a maquete, com toda liberdade do mundo sem nenhum compromisso se isso vai ficar bom ou se vai ficar ruim. Eu já determino se ela vai ficar ou não. Se não vai eu já nem perco o meu tempo mais com ela também.

Eu tive uma formação muito segura com relação a isso. Eu passei anos da minha vida estudando metalurgia, estudando esses processos para que eu pudesse um dia, antes de dobrar o primeiro metal, estar capacitado a fazer esse tipo de coisa. E, antes disso, tive também uma formação universitária em artes plásticas que me deu um cabedal necessário para que eu pudesse ter uma intimidade estética com esse material bruto que geralmente é usado para fazer navio, para fazer automóvel, para fazer pontes, na indústria da construção civil. Mas eu dou um caráter completamente diferente, que é um caráter estético, de beleza e desprovido de uma função imediata. Então eu faço com que o aço se torne bonito, que se torne leve, que se torne agradável.

É interessante que você observa que todo aquele material bruto, inóspito, rústico que você manipulou dá lugar e a vez a uma peça fina, questionadora, importante para o nosso contexto cultural e que passa a ter vida própria.
Mas as vezes eu corro para a pintura. É meu hobby. Eu sei que os pintores vão me matar por isso, mas eu me divirto com a pintura porque a pintura é poesia. A pintura é uma coisa excepcional. Ela me afina, ela me deixa ligado. A minha pintura não tem nada a ver com a minha escultura.

A minha escultura é abstrata, é conceitual, contemporânea. A minha pintura é figurativa, meio retrógrada. Esse descompromisso eu tenho porque eu gosto de pintar e gosto de pintar aquilo que eu gosto de fazer com as duas dimensões. A escultura tem um elemento a mais que me tira do conceito de pintura. Então, às vezes eu estou extremamente cansado, sem ideias. Eu vou para o cavalete, eu vou abrir as minhas tinhas, que as vezes ficam meses guardadas e vou trabalhar. Isso recupera as minhas energias até que eu possa continuar. Eu me descanso de escultor sendo pintor.

Brasília é uma cidade concebida para que seus espaços sejam preenchidos com arte. E acho que mais pessoas deveriam investir nessa ideia de arte junto a edifícios, em praças. Até porque quem ganha é a memória cultural da própria cidade.

Os artistas estão aí disponíveis com boas ideias. Os empresários também estão aí com boas ideias, ousando naquilo que tem feito e, se junta esses dois, acho que forma uma boa parceria. A população é quem ganha porque ela se torna mais rica, se torna mais humana.

Eu sempre costumo dizer que da mesma forma que uma cidade precisa de orelhões, paradas de ônibus, esses equipamentos urbanos indispensáveis, esses objetos de cultura também são indispensáveis.

Todo mundo sai ganhando porque é o patrimônio cultural que fica. E um povo sem memória é um povo que não está qualificado para um futuro muito brilhante. A cultura é o reflexo da própria memória que o povo tem. A cultura, em todas as suas formas, é o registro da presença da ideia, do pensamento que esse povo teve em uma determinada época.”

Dezembro de 1999