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Vladimir Carvalho, cineasta documentarista em Retrospectiva 70 anos

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Memórias do Brasil

Descrição:

“Do que eu me lembre, eu em 57, 58, já estava mexendo com isso. Eu considero 40, 45 anos nessa vidinha, correndo atrás dos filmes. Ao todo são, até agora, vinte filmes, fazendo o vigésimo primeiro. Vou iniciar realmente ‘O Engenho de Zé Lins’, o vigésimo primeiro filme.

Cinema, para usar uma linguagem muito popular, é como bicicleta: se você parar, você cai. Então você tem que emendar na medida do possível. O ideal seria você emendar um filme no outro. Aí eu só faço documentário. Então a relação com essa que chamo de ‘o real’. O real é tudo que está em volta da gente, as relações do homem com a natureza, dos homens com outros homens, as relações de classe, até com o imaginário simbólico. É tudo isso que constitui o que a gente chama de real.

A realidade é muito rica e inesgotável, você olha para ela e você tem motivação para fazer muitos filmes, e eu só fiz filmes documentários e me preocupei muito com o cotidiano do povo. Não escolhi isso, parece que fui escolhido. Quando me dou conta, parece que estou fazendo exatamente esse tipo de filme.

Esse tipo de coisa, a injustiça social, o sacrifício, e é sempre o povo a maior vítima de tudo isso. É como se ele passasse por um expurgo, por uma rejeição histórica. Me preocupo com isso e é isso que tem feito o sangue, o nervo do meu trabalho.

Eu uso o cinema como um instrumento para mostrar isto. Eu não faço cinema para fazer firula, ‘olha aí como eu sei fazer!’. Eu estou sempre engajado em alguma coisa que vem do povo. A minha estrada é essa, não tem outra, e eu realmente não me arrependo de nada.

Filme, às vezes, não se apresenta totalmente a você. Você tem uma intuição, às vezes é uma palavra, uma ideia vaga, um sonho, você ouve uma coisa na rua ou vê e aquilo se instala no seu espírito e você não dá conta de fazer aquilo funcionar. Você vai fazer um filme e fica remoendo aquela história. Se você soubesse o que era o filme antes, você nem precisava fazê-lo, tanto que quando você entra na edição parece que você é o senhor de tudo aquilo. Você é como um deus daquele pequeno mundo que você escolheu. Uma coisa que cativa, essa coisa do desafio, é uma corrida gostosa da gente realizar.”

Abril de 2005